O que há por trás das muralhas do CDP Caraguatatuba

 

Pela primeira vez uma equipe de reportagem entra nas dependências do Centro e mostra o trabalho para recuperação dos presos
Mara Cirino
Há pouco mais de dois anos entrou em funcionamento o Centro de Detenção Provisória “Dr. José Eduardo Mariz de Oliveira”, o CDP Caraguatatuba. Na última sexta-feira, pela primeira vez uma equipe de reportagem entrou nas dependências para mostrar o que há por trás das suas muralhas.
Com capacidade para 768 presos, a unidade, assim como em todo o Estado, tem mais internos confinados (993 no dia da visita) e para levar um pouco mais de dignidade àqueles que estão com sua liberdade restrita, desenvolve uma série de atividades e faz parcerias que tem apresentado bons resultados.
O objetivo dessa reportagem é justamente mostrar um lado que a sociedade não conhece e que diariamente se passa nas instalações do CDP. Todo esse trabalho é coordenado pelo diretor Walnir Aparecido Bosso, que colocou sua marca na unidade que recebe os presos que cometeram algum crime em uma das quatro cidades do Litoral Norte – Caraguatatuba, Ubatuba. São Sebastião e Ilhabela. A maioria, cerca de 40% do total, está lá por envolvimento com o tráfico de entorpecentes, seguindo por roubos e furtos, além de crimes violentos.
Na semana passada teve início o curso de Reciclagem e Recuperação de Móveis para 20 detentos, desenvolvido por meio do Centro Paula Souza, Fundação de Apoio à Tecnologia (FAT) e a Fundação Professor Dr. Manoel Pedro Pimentel (Funap), sob responsabilidade da Escola Técnica (Etec) de Caraguatatuba.
Mas paralelo a essa ação, segundo Bosso, o CDP Caraguatatuba é o pioneiro no Estado a levar o curso de Libras, a Linguagem Universal dos Sinais, para dentro das grades. A iniciativa foi da Coordenadoria Pedagógica ao identificar detentos que eram ‘marginalizados’ pelos colegas por terem deficiência auditiva. Hoje, eles se integram dentro da sala de aula.
No local também funciona uma escola com aulas para Alfabetização de Adultos e Ensinos Fundamental e Médio. Outro diferencial são os cursos de Inglês e Espanhol e nos próximos dias deve ter início o de Francês. Hoje, são cerca de 200 internos que frequentam uma das cinco classes do Pavilhão Educacional. Como os presos cometeram seus crimes nas cidades do Litoral Norte, o curso de línguas estrangeiras foi apontado como uma opção para quando eles saírem do Centro. Segundo a coordenadoria pedagógica, eles entendem a necessidade de falar outra língua porque podem ter uma oportunidade de trabalhar com o turismo, por exemplo, quando conseguirem a liberdade.
Diferente dos cursos tradicionais, a metodologia é mais dinâmica, partindo para a conversação, que é o que mais sentem de necessidade e facilidade. “Eles estão aprendendo algo que pode ser utilizado quando estiverem na rua. Vai deles querer mudar uma situação ou continuar no crime”.
A área da saúde também é abordada dentro das salas de aula e os resultados são compensatórios, segundo informações da direção. De acordo com Walnir Bosso, uma boa parte dos internos tem noção do que o HIV, vírus transmissor da AIDS, mas desconhece, por exemplo, o que é uma Doença Sexualmente Transmissível (DST). Esses temas são abordados e já influenciam no comportamento do interno.
Eles também têm oportunidade de discutir o conteúdo das aulas, se o que é aplicado na sala de aula, ou como é aplicado, é de interesse coletivo. Para isso, o planejamento é feito semanalmente, o que, na concepção da coordenadoria, mantém o interesse dos participantes.
Movelaria
Mas assim como os cursos, há ainda nas dependências do CDP uma fábrica de móveis onde pelo menos 40 internos fazem o trabalho de entrelaçamento e montagem de sofás, cadeiras e mesas em estilo rústico.
Essa parceria é possível, conforme o diretor Walnir Bosso, em função de dois galpões existentes nas instalações. O primeiro está ocupado pela Natureza Móveis, fábrica de Caraguá, e o outro está vazio, em busca de outra parceria que possa levar atividades aos detentos. (Leia mais nesta página).
Disso tudo, é importante ressaltar que essas ações são disponibilizadas aos presos que já têm uma definição de suas penas, ou seja, aqueles que já foram julgados e aguardam a transferência para uma unidade prisional definitiva, como penitenciárias.
Do total de internos, pelo menos 140 têm uma situação definida, conforme o diretor, e uma parte é de condenados indefinidos, ou seja, foram julgados por um processo, mas tem outros pendentes.
“Não somos uma penitenciária, mas temos condições que nos permite levar mais opções aos nossos presos”, afirma Bosso.
Diante dessa situação, a administração do CDP também finaliza parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), subsecção Caraguá, no sentido de agilizar os processos dos detentos provisórios.

Desconto
da pena

Preso na escola ou trabalhando é contemplado com redução da sua pena, conforme prevê a legislação. Por isso, para cada 18 horas de estudo ou três dias de trabalho, ele tira um dia da pena.
Além da fábrica, há outros serviços internos que o preso pode fazer para obter o benefício como faxina, monitoria. O próximo passo, conforme o diretor, será o retorno do funcionamento da cozinha industrial que esteve fechada devido a um vazamento de gás. “Toda a tubulação foi trocada e até nos próximos dias vamos retomar as suas atividades”, anuncia.
Para isso, após análise, os presos que tiverem habilidades culinárias e interesses serão chamados para tocar as instalações. No local, há possibilidade de fazer 3 mil refeições diárias.

Unidade prisional busca outras parcerias para levar mais trabalho

Além dos raios habitacionais, onde ficam as celas, dos pavilhões educacional, saúde e cozinha industrial, o Centro de Detenção Provisória (CDP) conta ainda com dois galpões que podem ser utilizados por empresas que queiram oferecer serviços para os presos. Este foi o caso da Natureza Móveis que há mais de um ano ocupa uma das alas e ‘emprega’ cerca de 40 internos. Além da remissão da pena, cada um recebe por produção.

O valor mínimo pago é de R$ 40, dependendo da peça confeccionada, e o dinheiro recebido vai para uma Conta Pecúlio que ele pode repassar para familiares ou deixar depositado para retirar quando sair.

De acordo com o diretor Walnyr Bosso, mesmo se transferido para outra unidade, ele pode pedir a mudança da conta. “É um estímulo para aqueles que estão aqui”.

Para criar oportunidade para outros detentos, Bosso busca outras parcerias para ocupar o galpão vazio. Segundo ele, as empresas interessadas podem entrar em contato com a direção do CDP. Mas ele antecipa que entre os critérios está o de atender o maior número possível de presos. “Não tenho como liberar uma área onde o benefício será para apenas cinco pessoas”, exemplifica.

O empresário Alcides Eduardo Gattei, da Natureza Móveis, conta que essa é a primeira fez que participa de um projeto social desse porte. Ele entende que essa é uma forma de ajudar as pessoas que estão detidas para que tenha oportunidade de aprender uma profissão a mais quando obtiverem a liberdade.

Hoje, pelo menos 30% da sua produção vem da fábrica de móveis instalada no CDP. Para isso, um funcionário acompanha os trabalhos e alguns presos também já dominam o processo de entrelaçamento das fibras.

Agora, com o curso de Reciclagem e Recuperação de Móveis, ministrado pela Escola Técnica (Etec) de Caraguá, será mais uma qualificação profissional para os detentos. Já a partir do dia 14, uma nova turma terá oportunidade de participar do curso educacional com a qualificação em Manutenção de Micros.

Para o diretor da Etec Caraguá, Fábio da Silva, “o apoio educacional é fundamental em qualquer que seja o segmento da sociedade a fim de servir como instrumento facilitador de inserção, bem como de cidadania”. (M.C.)

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One Comment em “O que há por trás das muralhas do CDP Caraguatatuba”


  1. O que tem pra hoje???…

    Olá! Vim deixar meu oi e convidá-los a dar um pulinho no #ManualdasEncalhadas Beijoooos…


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